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Congresso de hipocondríacos

Luis Fernando Verissimo

Do baú. "Senhores congressistas, sua atenção, por favor. Não quero interromper suas queixas e trocas de sintomas, mas chegou a hora da distribuição dos brindes (APLAUSOS).

Acho que todos concordarão que o nosso Primeiro Congresso Internacional de Hipocondríacos foi um sucesso. E este foi apenas o primeiro. Outros virão (APLAUSOS).

Infelizmente, a maioria dos que estão aqui hoje não participará do congresso do ano que vem, se seus prognósticos se confirmarem. Mas outros tomarão nosso lugar na defesa desta causa tão incompreendida. Sim, fazem pouco de nós. Riem dos nossos autodiagnósticos. Não acreditam nas nossas doenças. Mas estamos dispostos a morrer para provar que estávamos com a razão! (APLAUSOS ENTUSIASMADOS).

Eu mesmo acordei esta manhã com umas pontadas aqui do lado e... Mas deixa pra lá.

Esta é uma ocasião festiva. Quero propor um brinde: à nossa pouca saúde! (TODOS BRINDAM “À NOSSA POUCA SAÚDE!') E vamos ao sorteio dos brindes, gentilmente oferecidos pelos patrocinadores deste nosso encontro, a indústria farmacêutica.

Dois kits de primeiros-socorros.

Um jogo de máscaras cirúrgicas descartáveis, para usar em casa.

Um medidor de pressão portátil, que pode ser usado no trabalho, na rua ou em ocasiões sociais.

Um gravador portátil para levar no bolso e ter a que se queixar quando se está sozinho.

Um ano de chapas grátis na Clínica Radiológica “Rei do X”.

E, o grande prêmio da noite... Uma semana com tudo pago para dois numa suíte do novo Hospital Santa Genoveva, com análises clínicas incluídas!“ (PALMAS FRENÉTICAS).


DEPOIS DO BANHO.

Nosso time de futebol de calçada e terreno baldio se chamava Racing. Ou frequentemente se chamava Racing, pois assim como não tinha uma formação exata- o número de jogadores em ação podia oscilar entre três e treze, ou mais- o nome também variava. Mas eu gostava de Racing. Não "reicim", Racing, com a pronuncia francesa ou argentina. Cheguei a desenhar um escudo para o time, com as letras RFC, que nunca foi bordado nas nossas camisetas por uma única razão: não tínhamos camisetas. Jogávamos com nossa roupa normal, e as chuteiras, naquele tempo pré-tênis, eram os sapatos de todo dia, para desespero das mães. Sim, sou do tempo em que só se usava tênis para jogar tênis, e quem jogava tênis?

Terminávamos os jogos suados, imundos, com roupas rasgadas e os sapatos mais arranhados do que as canelas desprotegidas. Os jogos terminavam ao anoitecer, mas alguns jogadores saíam antes do tempo, pois precisavam "entrar", chamados para fazer a lição de casa, tomar banho - enfim, aquelas coisas que atrapalham a vida de qualquer atleta. E era comum um dos que saíam voltar, de banho tomado e roupa mudada, enquanto o jogo estava em andamento.

Lembra daquela sensação? Você voltava ao local onde antes trocava pontapés com outros selvagens ou rolava pelo chão sem se preocupar em poupar calça, camisa ou joelho, mas você era outro. Era você depois do banho, com ordens expressas para não se sujar de novo, não se misturar mais com a sua turma de peladeiros e, acima de tudo, não chutar nada com o sapato bom. Ao mesmo tempo um ser superior que olhava os outros com divertida condescendência - "Ah, sim também fui criança como vocês..." - e uma espécie de pária, segregado dos outros pelo seu novo status de limpo, penteado e pronto para jantar.


Domingo, 13 de fevereiro de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.